O estrondoso som do velho ventilador sobre as
tábuas não é capaz de abafar o gritante silêncio que vem de mãos dadas com o
frio da noite. Sinto o descompasso cardíaco que me impõe a euforia física, de
ideias e de sentimentos. O pôr do sol dispara o gatilho e o amanhecer afaga os
demônios que duelaram comigo por horas e horas... Os pregos do colchão não me
deixam deleitar dos mais reveladores sonhos, e mais, eles me lembram de tudo o
que eu, um desleixado, deveria ter feito para gozar de um repouso merecido após
um turbilhão de atividade cerebral. Reflito sobre tudo o que fiz e o que pensei
quando não tive tempo para refletir. Ora eu, tão bruto e tão doce, me perco ao
falar tanto e, ás vezes, não dizer nada. Ora eu, tão sutil e tão direto. Nunca
fui muito bom em expressar os sentimentos, o afeto, o ódio, a admiração. Acabo
por parecer frio, rude e indiferente. Ah a desconfiança! Será ela a raiz dessa
árvore torta que cresce à luz da lua? Talvez seja essa a resposta, a
desconfiança e a incerteza, tanto em mim, quanto nos que mais amo. A incerteza
também faz parte da vida. Estou doente ou estou dando vazão em demasia à algo
que é normal e que todos possuem, porém, administram de outra forma? Não quero,
de maneira alguma, desconstruir tudo o que existe, quero apenas expressar esse
meu defeito de analisar cada gesto, cada palavra, cada olhar. Talvez este seja
só mais um devaneio da insônia que dará lugar a outro que virá no próximo
entardecer e depois a outro, e assim por diante. Às vezes me perco nessa linha
tênue chamada sobriedade, e confesso, não sei se o que os meus olhos enxergam é
a realidade ou é o que eles realmente querem ver.
segunda-feira, 21 de abril de 2014
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