Vejo-a chegar todo dia. Ela desce do ônibus, atravessa a rua, empina o nariz e caminha depressa. Não sei se ela levanta o nariz porque gosta de andar de nariz empinado, ou se ela joga a cabeça pra trás pra sentir o cabelo balançando enquanto caminha. Acho que ela gosta de sentir o cabelo balançando enquanto caminha. Provavelmente goste. Eu também gostaria se tivesse um cabelo belo e delicado como o dela. Seu nariz também é bonitinho, apesar daquele osso saltado. Ela deve gostar de empiná-lo também. Aquele osso saltado já me incomodou, agora já nem o noto mais. Provavelmente aquele maldito osso também a incomodara.
Ela chega, senta-se à mesa e come depressa, sempre reclamando e falando alguma coisa. Lógico, ela fala pelos cotovelos. Como não falar? Como não reclamar de alguma coisa? O mundo é mesmo ruim, as coisas são mesmo muito feias. Ela é tão delicada para o mundo, você precisa ver. Muito mais delicada que o mundo é para ela.
Às vezes ela me olha com carinho, gosta de mim – penso. Ela já sofreu muito na minha mão, eu já fui muito mal com ela. Depois ela sai e volta. Reclama do cheiro do meu cigarro, fala dos meus dentes amarelos. No fundo talvez ela me ache o máximo, ou talvez ela me odeie pra caramba. Claro, ela deve me odiar pra caramba. Mas ela não demonstra nem um pouco, ela é sempre educada e encantadora, principalmente se precisa de alguma coisa.
Ela sempre olha meus amigos com um pouco de ódio, não, talvez não seja ódio, talvez seja apenas um olhar superior, sabe. Talvez ela queira apenas deixar bem claro que não está afim de intimidades. E ela certamente não está afim de intimidades. Claro que existem algumas exceções, não são todos os meus amigos que ela olha assim, só os mais decadentes. Ela gosta dos decadentes, não é que ela não goste dos decadentes, mas às vezes ela desdenha dos decadentes, e deve ser pelo ar superior que eles têm. E ela sempre se acha um pouquinho superior.
Ela tem muitas virtudes. Eu queria dizer muitas coisas sobre as virtudes dela, a gente quase nunca conversa sobre as coisas que ela sente, e tampouco sobre as coisas que eu sinto. Eu acho que ela não sente muita curiosidade pelas coisas que eu sinto, talvez sinta um pouco de curiosidade, mas não uma curiosidade tão grande como esta que eu sinto pelas coisas que ela sente. Ela carrega uma porrada de sentimento nas coisas que escreve, mesmo que o texto venha carregado de imaturidade, tem um estilo bem característico, e isso me deixa ainda mais interessado nas coisas que ela sente. Ela deve escrever assim por que se alimenta demais. Come, come, come, e depois vomita, vomita e vomita. E esse vômito vem filtrado e pega muitos sentimentos legais. Dá pra notar nitidamente que ela realmente sente aquilo que está escrevendo, e aí o texto assume um estilo muito original.
Eu queria dizer tantas coisas a ela. Eu a quero tão bem. E as vezes parece que tudo vai ficar bem, e parece que a gente vai dividir um monte de opiniões diferentes e ao invés de ensinar algumas coisas a ela, ela é quem vai me ensinar uma porção de coisas. Por que ela possui uma sensibilidade tão grande, e ela vê coisas que quase ninguém vê, e entende várias coisas que quase ninguém entende.
sábado, 19 de junho de 2010
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